quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

DIPOMACIA

                                             INSTITUTO RIO BRANCO

                                         Luiz Ferreira da Silva, 87




Casa de homens finos, educados e cultos. Acesso à classe alta que tem uma formação de berço bem diferente dos demais brasileiros. Fazem carreiras com muitos estudos para serem diplomatas. E vivem sob regras consensuais na busca de encontrar soluções para problemas internacionais, com sabedoria e culto à autodeterminação dos países.
Ofícios respeitosos, reuniões e encontros produtivos em lugar de confrontos e xingamentos.
O chamado caminho da DIPLOMACIA.
O mundo mudou? Tudo jogado no lixo e as desavenças passaram do papel bem escrito com o carimbo diplomático para as famigeradas redes sociais da internet.
Do bom senso, da discussão inteligente ….para a ignorância “túrgida”.
É muito triste! (21-02-2024)


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

CONTRADIÇÃO FLORESTAL

 

INTERAÇÃO SOLO-VEGETAÇÃO NOS TRÓPICOS ÚMIDOS E A CONTRADIÇÃO FLORESTAL,

Luiz Ferreira da Silva, 87

Engenheiro agrônomo, Pesquisador aposentado (CEPLAC/BA).

luizferreira1937@gmail.com


A floresta primária nos trópicos úmidos é exuberante, com produção em torno de 200 m3 de madeira comercial por hectare (árvores com diâmetro superior a 20 cm); constituída de diversos estratos de comunidades vegetais, a exemplo da mata que recobre os tabuleiros do Nordeste em sua faixa úmida costeira e os trópicos úmidos da Amazônia.

Trata-se de uma vegetação em estado de clímax (Sioli,1973), apresentando quatro componentes básicos (Poggioni, 1976), do ponto de vista funcional:

(a) Substâncias abióticas: componentes vivos do meio, como a água e os nutrientes;

(b) Produtores: organismos autotróficos que, no caso específico, são as árvores, arbustos e ervas;

(c) Consumidores: organismos heterotróficos; em sua maior proporção, animais que ingerem vegetais ou outros animais; e

(d) Decomposição ou micro consumidores: incluem-se bactérias, fungos etc., que agem na desintegração dos organismos mortos.

Conjuntamente, a vegetação e o solo constituem um sistema no qual cada um dos elementos, sejam eles orgânicos ou inorgânicos, afetam e são afetados uns pelos outros. Tais componentes fazem com que os nutrientes estejam em constante movimentação, indo de um para o outro, constituindo assim o ciclo de nutrientes que, por sua vez, pode ser dividido em duas formas, conforme Demattê, 1988):

(a) Ciclo geoquímico: inclui as formas de transferência de nutrientes para dentro ou para fora do sistema; e

(b) Ciclo biológico, ou interno, que corresponde à ciclagem interna dos nutrientes no sistema.

Dessa forma, o ciclo de nutrientes possui duas áreas de estocagem: a biomassa e os primeiros centímetros do solo.

Essa interação solo-vegetação é, pois, algo fantástico e até intrigante, constituindo na grande "contradição tropical": vegetação exuberante desenvolvida em solos pobres. Como é possível isso? Que mistérios existem no ecossistema tropical que fazem as plantas crescerem em solos ácidos e inférteis? E por que ainda não foram desenvolvidos sistemas de agricultura sustentável, assemelhados à floresta?

São indagações para fins de pesquisas. É fundamental conhecer como se processa a formação de uma floresta em solos Oxisols/Ultisols, estudando-se com detalhes, inclusive, o sistema de regeneração natural (desenvolvimento das capoeiras), a exemplo de trabalhos feitos por Silva (1990).

Em razão desses fatos e especulações, é fundamental se entender a associação das plantas no sistema florestal, no que diz respeito às interações fenológicas, sucessão vegetal, qualidade do "Iitter" e atividades das raízes nas camadas do solo, com vistas a subsidiar os sistemas agrícolas.

Tudo isso na intenção de maximizar a interação solo-cultivo, de modo a não deteriorar o complexo edáfico e manter o equilíbrio biológico-econômico. Em outras palavras, um indicativo seria associar espécies de valor econômico, com base nessa premissa de interrelação solo-planta, com características diferenciais quanto à:

(a)         Acumulação de matéria orgânica;

(b)         Riqueza nutricional do "Iitter";

(c)          Fenologia;

(d)         Exploração do solo em distintas camadas/horizontes;

(e)         Eficiência na reciclagem dos nutrientes: e

(f)           Especialização em solubilizar nutrientes.

 

Silva (1990) comparou uma floresta primária do ecossistema dos tabuleiros, no Sul da Bahia com urna capoeira oriunda, de doze anos de idade, no intuito de tentar entender certos mecanismos de formação e manutenção do sistema em relação ao ambiente tropical de solos pobres.

A estratificação da vegetação dá ideia da exuberância da floresta primária nos tabuleiros, cuja cobertura vegetal se assemelha à da Amazônia, com uma extraordinária diversidade biológica. Por outro lado, a capoeira se apresenta com uma comunidade vegetal muito rica, demonstrando a capacidade regenerativa da floresta, nas condições do estudo (áreas contíguas à mata).

Trata-se de uma cobertura vegetal com grande número de espécies "pioneiras", que desaparecem com o tempo, dando lugar as árvores definitivas, após cumprirem sua "missão", a de fornecer condições - preparar o "terreno" - para o desenvolvimento da futura floresta, assim se induz, sem o “certificado” científico.

Um exemplo que pode corroborar com essa provável assertiva, na qual cada planta ou grupo de plantas tem uma função no sistema florestal em "comum acordo" com o solo, diz respeito à emergência de uma espécie herbácea, denominada "bredo de veado", imediatamente após as queimadas, nos pontos de maior concentração de cinzas, onde o pH é elevado (em torno de 7,5), vegetando com exclusividade nesse ambiente alcalino. Ela cresce rapidamente e frutifica com abundância atingindo uma altura de 100 cm, com 6 meses de ciclo de vida, deixando uma considerável biomassa para o solo, sobretudo com elevado teor de potássio (5,10%; massa seca). conforme análises químicas feitas pelo autor.

A "missão" dessa planta seria - quem sabe? -  de reter o potássio das cinzas, evitando as perdas por lixiviação, fornecendo-o ao solo através da matéria orgânica oriunda da sua biomassa, propiciando condições para o desenvolvimento de espécies subsequentes. Este é um caso de função específica; outros são de interrelação nas comunidades vegetais e entre elas.

Por outro lado, na capoeira o crescimento das raízes finas (radicelas de até 2,0 mm), regeneradas no tempo de 7 meses é maior na capoeira, indicando maior dinamicidade nesse ambiente ecológico regenerativo, com influência na reciclagem dos nutrientes e na absorção de água, cuja. performance neste estágio florestal, evidencia a sua dinamicidade biológica, indicando um processo eficaz de reciclagem, no qual as espécies se associam e se interagem sequencialmente, como se existisse um tipo de comensalismo.

Ademais há um diferencial entre as espécies da mata e da capoeira, no que se refere aos nutrientes contidos em suas folhas, com tendência de maior quantitativo na área da capoeira. Seria uma maneira de enriquecer o solo para gáudio da floresta definitiva?

Em síntese, o sistema florestal com essa interação em seus estratos arbóreos, arbustivos e de cobertura (herbáceos), está a indicar o caminho a ser pesquisados sistemas de agricultura assemelhados, de modo a que se obtenha um equilíbrio solo-planta, mantendo-se as condições do complexo ecossistêmico.

 

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REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

01.. DEMATTÊ. J.L.I. 1988. Maneio de solos tropicais úmidos da região amazônica. Campinas. SP. Fundação     Cargill.215 p.    

02. POGGIANI, F. 1976. Ciclo de nutrientes e produtividade de floresta implantada. Silvicultura, São Paulo. 1(3):45-48.

03. SILVA. L.F. 199I. Manejo dos Recursos Naturais dos Trópicos Úmidos

e suas consequências. contradições e perspectivas de uso em agricultura sustentável. Revista Agrotrópica. Itabuna. BA. 3 (I): 15-11.

04. SIOLI, H. 1973. Ecologia da paisagem e agricultura regional na Amazônia. A Amazônia Brasileira em Foco, 8:18-27.

 

CNBB 2024

 

FRATERNIDADE E AMIZADE SOCIAL

Luiz Ferreira da Silva

luizferreira1937@gmail.com

 

 



 

A CNBB lançou a sua campanha/2024, com base em Mateus: (Mt, 23,8) vós sois todos irmãos e irmãs”.

Á luz de Deus, sim. Dos homens, nem sempre. Muitos ricos se acham superiores aos pobres. Os que detêm poder, seja o que for, esnobam os seus subordinados. Os que se acham belos desdenham os de menos atributos físicos.

E outras excrescências pontuais. Os que passam férias em Dubai tem o nariz empinado para os farofeiros do piscinão de Ramos. Os chamados “Globais”, nem falar da sua petulância ante os colegas de outras mídias. Os blocos de carnaval de Ipanema relegam os suburbanos da Central do Brasil. Os que dirigem uma Ferrari, ao entrar ou sair do carro, faz uma “mise en scene “para dizer eu sou o tal e tudo posso, torcendo a cara para dono de um carro 1000.

Isso demonstra o quanto a humanidade está fora do caminho indicado pelos Bispos do Brasil, traçado por Jesus, cujos ensinamentos não chegam à maioria apaniguada, fator principal ao mundo presentemente conturbado: guerras em profusão.

Se todos nós fôssemos irmãos, as famílias brasileiras não estariam se digladiando por alas políticas malfazejas; os russos não teriam invadido a Ucrânia; o Hamas não teria invadido Israel e este não teria revidado em dose dupla; os homens respeitariam as mulheres e não haveria estupro; a sociedade aceitaria a diversidade geral.

Então, caro irmão, quando formos todos irmãos e irmãs, nenhum ser humano em qualquer recanto do universo passará fome.  

Viva, pois a providencial campanha da CNBB, rogando aos céus pela sua eficácia. (Maceió, AL, 19-02-2 023).

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

OS PIONEIROS, BRAVOS HOMENS DO CACAU.

 

UM MONUMENTO AOS CORONEIS DO CACAU

Luiz Ferreira da Silva, 87

luizferreira1937@gmail.com

 


(Monumental aos Bandeirantes, Ibirapuera/SP-SP.

 

Em 2022, com meu colega Moreau, lançamos o livro – O Manjar dos deuses é de dar água na boca (Scortecci Editora/SP), no qual reverenciamos os bravos pioneiros do cacau que nos deixaram um patrimônio agro eco- socioeconômico sem precedentes. Desenvolveram uma agricultura sui generis, interagida com a floresta; criaram uma história além-fronteiras; desenvolveram uma cultura popular e produziram uma riqueza catalizadora de empregos.

Com clarividência, pois, soube o primitivo homem do ca­cau implantar uma lavoura onde nenhuma outra poderia se es­tabelecer agronômica, econômica e ecologicamente, como uma espécie de nicho para esta planta tão dadivosa, numa região de solos pedregosos, topografia acidentada e “muriçocas” sem respeito.

Pois bem. Acontece que o lado explorado, sobretudo pelos famosos escritores foi de serem bárbaros e esbanjadores, desconhecendo o trabalho árduo e destemido em uma região de mata fechada, sem quaisquer infraestrutura e apoio governamental.

Tinham que ser machos no sentido da labuta sol a sol e na defesa do seu patrimônio, ademais da submissão a um código assemelhado ao do Hamurabi: dente por dente e olho por olho.

Imagine o leitor o desbravamento de uma natureza bruta na busca da sobrevivência em ambos os sentidos – física e estipendiá­ria – sob regras e leis dos homens sentados em seus confortáveis gabinetes! Não se daria a posse destas terras selvagens e nem o solo produziria uma riqueza que ultrapassou os umbrais da mata fechada, formando vilas e cidades, enriquecendo uma região.

Começaram pobres, sem dinheiro e sem instrução, subindo na vida pegando no facão, na espingarda papo amarelo, alimen­tando-se de carne seca, farinha e rapadura. Viviam em casebres, dormindo em redes ou em esteiras de palha, como é contado por renomados homens das letras.

Temidos e admirados, eles eram ativos participantes da vida social grapiúna, líderes legitimados pelo voto, quase sempre con­quistado pela força do dinheiro, das armas e controle das instân­cias públicas – a justiça e a polícia.

As supostas maldades atribuídas aos coronéis, apesar de condenáveis, podem até ser classificadas de menor grau compa­rando-as com atos de corrupção praticados pelos políticos no Brasil, haja vista os danos atuais e às gerações futuras.

E com toda a desgraceira, foi graças aos coronéis que o cacau se tornou responsável por 40% da atividade financeira do Estado da Bahia.

No entanto, é importante que se frise que poderia ser dife­rente porque o cacaueiro jamais foi protagonista desta triste ação maléfica do homem. Pelos seus dotes advindos da natureza, ele apenas foi um fator de cobiça desregrada e da ganância do ser humano que continua até hoje.

Os nossos pioneiros não conheceram a vassoura-de-bruxa. Não sei se eles se amofinariam e tirariam o time do campo, pois sem o respaldo técnico-científico, sempre enfrentou a “mela” (podridão parda), a chupança (monalonion), os roedores e tantos outros “sócios” do cacau.

Provavelmente, conviveriam, em razão de suas roças em solos férteis e de cacaueiros jovens, com vigor de alta capacidade de recuperação. Ademais, com seu facão afiado e seu podão areado, não permitiriam um grau de infestação tão elevado, mantendo o fungo sob vigilância constante (podas fitossanitárias).

Diferente de 1989, quando a vassoura pegou o cacauicultor de calças curtas: a lavoura estava quebrada, o produtor descapitalizado, as instituições em declínio e as roças de cacau envelhecidas.

Agora, os televisivos acompanham a TV-GLOBO que exibe dramas vividos na região do cacau, cujo ator principal é Marcos Palmeira, neto do cacauicultor Sinval Palmeira.

 De certa feita, 50 anos atrás, estive em sua residência que mantinha em Itabuna, já que era Deputado Federal pelo RJ, para lhe solicitar permissão a um estudo de perfis de solos que iria amostrar em uma de suas fazendas. A casa estava repleta de netos e, possivelmente, o Marcos estava presente.

Acredito que o bom ator tenha chupado muitas bagas de cacau e recebido informações do avô sobre a epopeia cacaueira.

Se assim aconteceu, vendo-o interpretar um tal de coronel Inocêncio, imagino o quanto deve se lembrar do Dr. Sinval e dito para si mesmo – nada tem a ver, meu avô; ou a Globo é quem sabe das coisas.

Eu que vivi 30 anos sendo “visgado” pelo cacau fico assistindo de camarote, esperando que a região análise e se pronuncie, caso se sinta ultrajada.

E, aproveitando a oportunidade do tema, sugiro aos atuais líderes do cacau - de Ilhéus, de Itabuna, de Camacã e de Ipiaú -, principais polos cacaueiros, que pensem num tributo aos pioneiros do cacau, erguendo um monumento, a exemplo do majestoso Monumento dos Bandeirantes, reverenciado pelo estado de São Paulo. (Maceió/AL, 12-02-2022).

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 3 de fevereiro de 2024

REPENSAR A AMAZÔNIA

 OS TROPICOS ÚMIDOS BRASILEIROS, PATRIMÔNIO ECOLÓGICO UNIVERSAL. REPENSAR É PRECISO.



INTRODUÇÃO

Luiz Ferreira da Silva e Manoel Malheiros Tourinho possuem uma identidade muito forte com a Amazônia. Ambos foram companheiros da mesma Instituição, CEPLAC. Um nas ciências do solo e, o outro, na Sociologia Rural. Depois de aposentados, nunca vestiram a carapuça de inativo e continuaram "sinapseando", mesmo ultrapassada a faixa dos "oitentrinos. Acreditam que têm cacife para falar da Amazônia. Luiz, realizou estudos de solos em Rondônia, coordenou a implantação de polos cacaueiros e assessorou a FAO/Universidade da Carolina do Norte na formatação de um projeto de manejo de solos tropicais. Tourinho, além de ter nascido nas barrancas do rio madeira, implantou a Universidade Rural da Amazônia e continua com projetos em zonas ribeirinhas. Praticamente, ao mesmo tempo, tiveram os olhos voltados à Amazônia, sobretudo imbuídos do desejo conservacionista e de contribuir para debelar a fome de tantos irmãos abandonados. 

Dessa forma, com uma visão até então não contemplada, sui generis, pois, escreveram os artigos a seguir, para reflexão dos que, por acaso, os lerem e estejam antenados com os pés-de paus do nosso Brasil. 

                                (I) AMAZONIA PEDE SOMBRA

Manoel M. Tourinho; Manoel Moacir Macedo; Gutemberg Armando Guerra. 

A Revolução Industrial, iniciada a partir da segunda metade do Século XVIII (1760 a 1820), ensejou uma transformação radical nas estruturas sociais, políticas e tecnológicas, no nível global e com amplo impacto na vida humana. Nesses duzentos e sessenta e quatro anos, a revolução industrial garantiu o processo de formação do capitalismo nas suas diferentes vertentes: industrial, agrária e comercial.

O seu epicentro, foi inicialmente, na Grã Bretanha, a seguir os Estados Unidos, e, mais tarde na Alemanha, Rússia; e hoje a China. Todas disseminaram e disseminam os seus modelos transformadores industriais na via dos “pacotes tecnológicos”, amplamente apoiados pelas agências de cooperação nacional ou financiadores internacionais como o Banco Mundial-WB, O Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID e o FundoMonetário Internacional - FMI.

No caso brasileiro, exerceu papel relevante as agências nacionais, como Banco do Nordeste, Banco da Amazônia, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES, e a Financiadora de Estudos e Projetos – FINEP. Elas viabilizaram, em territórios nacionais o emprego desses pacotes, sem questionamento de suas externalidades.

Destaque anotado do alcance da revolução industrial na produção agrícola foram os famosos “pacotes tecnológicos” alcunhados de “Revolução Verde”, desenvolvido e liderado pelo Agrônomo Norman Borlaug (1914-2004). Este cientista americano, julgava possível erradicar a fome mundial, pelo uso de sistemas de produção com sementes genéticas com potência produtiva, a exemplo do arroz, milho, sorgo, por exemplo cultivadas em qualquer latitude, empregando insumos modernos, tais como sementes melhoradas, irrigação, fertilização, defensivos químicos e máquinas agrícolas. No dizer de Rachel Carson, na obra Primavera Silenciosa (1967) o “famélico” se não morresse por falta de comida, morria dos venenos químicos indiscriminadamente aplicados.

Organizações governamentais de desenvolvimento, mundo a fora, adotaram a receita de Borlaug, como o paradigma do aumento linear da produção e da produtividade de lavouras e criações. O Brasil não ficou indiferente, acolhido nos currículos das escolas de agronomia, nas estruturas de crédito e fomento, na prática da extensão rural, e nos portifólios das cooperativas de produtores rurais. Na atualidade essa é a lógica em uso na de produção agrícola nacional.

No caso específico do bioma Amazônia, onde existe terra disponível e a preço baixo, mas pobre em elementos químicos Apenas 5 % dos solos são avaliados como naturalmente ricos, em uma superfície de aproximadamente 5,5 milhões de quilômetros quadrados. A produção nesses solos somente é viável no modelo produtivista, sob custos pesados de insumos químicos e sintéticos. A Amazônia, pela condição de ‘fronteira aberta’, para os apologistas da “Revolução Verde” pode ser o ‘ideário de Norman Borlaug’.

Atualmente, o estratégico bioma, localizado na maior região brasileira, empurra o aceleramento das mudanças climáticas globais. Desmatamento, terras degradadas, urbanização acelerada, uso da terra incompatível com uma agenda de mitigação das mudanças climáticas, contaminações generalizadas dos corpos d’água subterrâneos e águas de superfícies como rios, lagos e igarapés. Garimpos ilegais, são adicionados às consequências dos pacotes tecnológicos estimuladores da crise climática e humanitária dos povos originários.

É importante acentuar que a fase da Amazônia extrativista e florestal passou e nada se aprendeu com ela. Mas se observarmos a região com lentes dos postulados epistemológicos e metodológicos kantianos, aguçando razão e os sentidos, é possível perceber que a Amazônia é terra de uso com a sombra da mata. Sombra é o uso da terra que deu certo. Nada de “pelação rasa” da mata de cobertura. Nenhum cultivo é tão emblemático nessa questão do que o Cacau. Cacau a sombra da floresta é cultivo ecológico perfeito, climaticamente nascido assim, e quando voltou às origens trouxe a “marca da sombra” derivado da sua origem amazônica. O açaí é outro cultivo bem amazônico que tem a “marca”. Inventos de domesticação que levam cultivares a pleno sol não passam de apanágios do fracasso global, sistêmico, integral e integrado.

A questão central do uso da terra na Amazônia como fator favorável- atenuante das mudanças climáticas, deve ter com objetivos: (1) Praticar a ocupação da terra e o solo baixo à sombra da mata. (2) Mudar os membros da equação da produção, de produção/produtividade para qualidade/quantidade, ou seja, minimização da grandeza. A teoria do “small is beautifull” de Schumacher é mais apropriada. (3) Nenhum negócio agrícola e/ou criatório deve exceder a cem (100) hectares. Não há necessidade de  reserva legal florestal; todo uso se fará baixo a sombra. (4) A extensão rural, o ensino agrícola e a pesquisa, na Amazônia, devem ter as suas orientações ontológicas, propositivas ao desenvolvimento das transferências do conhecimento e geração do conhecimento direcionados integralmente à prática do uso da terra, baixo a sombra florestal já existente.

Ao final, caso a soja e a pecuária sejam adaptadas “bem baixo à floresta”, sejam” benvindas; caso contrário, aqui não será o seu lugar. (31.01.2024)

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(II) O PÉ-DE- PAU EM PRIMEIRO LUGAR NA AMAZÔNIA

Luiz Ferreira da Silva

Quando se fala na Amazônia, nos enche os olhos a floresta, a mata, as árvores exuberantes, os pés-de-pau floridos.

É o passaporte da natureza úmida tropical. Isso quer dizer que nada que se mexa nela pode prescindir da floresta em seu epicentro.

A polêmica no mundo todo é sobre como se usar, ou se conservar ou se preservar, sobretudo na agropecuária.

A pressão das “plantations” é por uma agricultura de altos insumos, com derrubada da massa florestal e limpeza completa do terreno, seguindo a compactação do solo pelas máquinas pesadas.

Mas, por diversos fatores climáticos, edafológicos e da repercussão ecológica que ultrapassa os umbrais da região, atingindo o mundo, há que se repensar fora dos padrões atuais do uso do solo. Uma outra agricultura, uma outra maneira de ver.

Como fui formado no visgo do cacau, cujo cultivo pode conviver com a floresta, num processo até de comensalismo, visualizo uma agricultura que, depois de ler um artigo dos colegas Manoel Tourinho, Manoel Moacir Macedo e Gutemberg Guerra (A Amazônia pede sombra), denominei de AGRICULTURA UMBRÓFILA.

Quem quiser plantar soja, milho, pastagem, café e mais e mais, vá para os cerrados, cuja cultura, no amplo sentido, é outra. Aqui, é sob os pés-de-pau.

Eu estou dizendo que vamos buscar novos métodos, novos enfoques de pesquisas e virar a “biruta” para novos rumos.

O mote é: A floresta em primeiro lugar, protagonista. Os cultivos que se adaptem a ela.

Hão de me perguntar? Como plantar debaixo da mata se a sombra vai impedir a produção dos produtos agrícolas?

Realmente, há necessidade de luz para a fotossíntese. Um raleamento, mantendo as espécies nobres de pé já é um bom começo, como acontece com o cacau, referido anteriormente.

Mas, é preciso mais e aí está a ciência para cair em campo, pois até então segue uma outra linha e jamais se pensou em criar variedades de milho, de arroz, de soja, de banana, de mandioca etc. com alta capacidade de produzir sob pouca luz. A própria natureza dispõe sob as árvores um extrato de plantas adaptadas a pouca luz. Uma fonte de genes para se trabalhar e transmutar. Mãos à obra, pois.

Até então, todo esforço da engenharia genética é para produzir plantas de alta produtividade e/ou resistentes a patógenos. No caso presente, o enfoque seria a baixa presença de luz e um sistema radicular que se interaja com o das árvores, explorando ademais camadas de solos diferentes.

Só assim, poderíamos desenvolver “combos agrícolas”, com diversos cultivos implantadas sob a floresta, conservando a mata e produzindo alimentos para tantos carentes da região.

E dessa forma, a floresta seria mantida, os cultivos se vicejariam, o contexto ecológico se autos sustentaria, a ciência daria um passo sociológico, até então elitista, e a fome seria eficazmente combatida. (Maceió, AL, 02-02-2 024)



sábado, 9 de dezembro de 2023

SALGEMA

 OS TABULEIROS DE MACEIÓ: OS SOLOS, AS CAMADAS E O CAOS AMBIENTAL

 Luiz Ferreira da Silva, 86 Pesquisador aposentado/Solos Tropicais, CEPLAC/BA. luizferreira1937@gmail.com 

Os tabuleiros se originam do terciário – formação barreiras, cuja litologia é formada por arenitos conglomerados, camadas e lentes de argila, arenitos não consolidados e lentes de seixos, conforme meu colega Agusto Pedreira (im), estudioso em geologia de áreas sedimentares. Em certos trechos do litoral, esses sedimentos – esculpidos em mesa – são cortados por falésias abruptas, como acontece em Porto Seguro (BA) e na Lagoa Azeda/AL, além de outros locais do Rio Grande do Norte à Macaé/RJ. 
Trata-se, pois, de materiais retrabalhados sobre os quais sob a ação dos fatores de formação do solo (clima, relevo e a biosfera) formam os solos identificados com a maior ou menor ação de um deles ou combinada. O autor estudou perfis de solos em topos sequenciais, bem como camadas litológicas até 30 metros de profundidade, em corte de estrada, com vistas a detectar as variações do solo com a posição topográfica (carreamento) e com a posição do sedimento (estratificação cruzada), no intuito de verificar a interação geoecológica na formação dos perfis. 
Em razão da natureza físico-química do material de origem, os solos são profundos, pobres em nutrientes, carentes em minerais primários e de baixa retenção de água. Argila de baixa atividade coloidal; dominância de sesquióxidos de ferro e alumínio. 
Pois bem, isso é o que se pode ver, apalpar e sentir em trincheiras. Ou seja, os horizontes do solo, de 0 a 200 cm. O mundo do pedólogo, como eu. Mas as camadas para baixo também lhe interessa, sobretudo os depósitos de água, através de análises de camadas profundas dotadas de areias grossas, contíguas aos argilitos e/ou folhelhos. 
Essa estratigrafia é variável e, no caso de Maceió/AL possui uma camada de acumulação de sal, oriunda da evaporação da água salgada marinha, em tempos do plioceno recente. Uma riqueza para a indústria química.

 (Estratigrafia e retirada do sal pela Brasken, (Poliana Casemiro, g105/12/2023)
É muito comum a perfuração de poços, explorando camadas acumuladoras de água, geralmente situadas a uma profundidade de 80 metros. Neste caso, é preciso se controlar a vasão retirada, utilizando com parcimônia, a fim não desequilibrar o sistema hídrico. Há casos, ao se retirar excessivamente, o repositório baixar a um ponto tal que, através do lençol freático, o mar penetrar, salinizar e reduzir a qualidade da água, como aconteceu em zonas concentradas desses poços nos tabuleiros de Maceió/Al. A Natureza nos dá, mas exige respeito às suas Leis. Nunca esquecer disso! Esse introito até longo é para tentar entender a catástrofe ecológica acontecida em diversos bairros da capital alagoana, ocasionando danos irreparáveis a uma população de mais de 50 mil habitantes, mas não suficientes para sensibilizar o poder público. Durante décadas, a Braskem minerou o sal-gema, explorando a camada de sais, desrespeitando regras ecológicas, sobretudo referentes à manutenção do equilíbrio estratigráfico da formação geológica, aqui descrita. É muito simples, para o leitor entender, de modo sucinto e sem muito ‘revorteio”. 

Imaginemos o gostoso bolo de roloque os pernambucanos inventaram para deleite de nós todos. Fig. 2. Bolo de rolo/rocambole com diversas camadas. Com um garfo, um abelhudo vai cutucando uma camada que mais lhe atrai no interior do bolo. Se pouca coisa, desinforma o bolo, mas sem muitas consequências. Mas ele não se contenta e manda ver na sua gula por doces. O que acontece? O bolo se desmorona. A Braskem no seu imediatismo e afã de ganhos sem comedimentos, deu uma do nosso glutão, extraindo o sal de modo predatório, ocasionado o desequilíbrio das camadas, afetando o chão que as recobre. O buraco que apareceu neste ano de 2023 teve um benefício: - lembrar ao poder público e à sociedade, nos seus diversos segmentos, um crime que vem lá de trás, impune na magnitude da agressão ambiental. Essa celeuma, esse corre-corre de hoje com a mídia divulgando inverdades e os políticos se apiedando dos pobres, talvez seja em razão das próximas eleições de 2024. A Natureza, em sua sabedoria, a tudo assiste e se lamenta em ter agido com firmeza, como sempre faz ao ter suas Leis contrariadas. (Maceió, Al, 05/12/2.023)

terça-feira, 28 de novembro de 2023

UMA NOVA VISÃO DA CACAUICULTURA


 

ESTADUALIZAÇÃO DA CACAUICULTURA

Luiz Ferreira da Silva, 86

(luizferreira1937@gmail.com)

 

(O belo edifício do ICB, patrimônio cultural)

 

No século XIX a economia baiana já dava sinais de dificuldades internas de produção, ou externas de comercialização dos produtos constantes de nossa pauta de exportação: açúcar, fumo e algodão. O açúcar, principal produto de exportação da então Província da Bahia, entrou em crise no final desse século, porém, um novo produto despontava: o cacau. A estreita faixa da cidade na parte baixa inseriu-se no processo de modernização na primeira década do referido século com a ampliação do porto. Nesse espaço, próximo à área portuária, foi erguido o edifício sede da lavoura cacauicultora baiana. O Instituto do Cacau da Bahia. Coube ao Dr. Ignácio Tosta Filho, Secretário de Agricultura, defensor de medidas de amparo à produção e comercialização do cacau baiano, a concepção e criação do Instituto, em 1931. (Fonte: Ipac-BA).

Em 05/11/2002, o edifício sede na Avenida França s/n – Comércio – Salvador/BA foi tombado como patrimônio artístico e cultural.

Quando cheguei na Região, em 1963, ainda usufrui de ações do ICB, através de seus ónibus que prestavam um serviço inestimável a toda região do cacau. Ainda alcancei os postos de compra-e-venda do produto e a Estação de Água Preta com seus pesquisadores de renome.

Na sua época, antes da existência da CEPLAC, quando a região sul baiana era carente em tudo, o ICB foi tão importante quanto a CEPLAC da década de 60. Ou até foi mais.

Esse introito é para desenvolver uma ideia sobre a cacauicultora de hoje, federalizada, que passa por uma crise sem precedentes e, na minha cabeça, ela é “one way” (sem retorno).

Eu me pergunto para tentar entender o problema:

*. O que representa o cacau para a economia do país?

*. Que importância estipendiária para o agronegócio brasileiro?

*. Que tamanho ele se apresenta aos olhos da EMBRAPA, cujo foco maior é o Centro-Oeste, por diversas razões?

Bem, isso é suficiente para o meu repensar. O cacau nada representa para o país, mas pode ser a tábua de salvação para os Estados.

Antes de me refutarem que nada funciona a nível dessa gerência publica, fui buscar três simples exemplos de Instituições Estaduais de excelência, atestando o contrário. O Instituto Agronômico de Campinas/SP, a EPAMIG/MG e o IAPAR/PR. O governo federal entra de parceiro, mas a hegemonia é deles. A EMBRAPA não canta de galo e precisa mais deles do que eles dela.

Então, que tal, Governador Helder Barbalho, criar o Instituto do Cacau do Pará? E o Governador Marcos Rocha de Rondônia ir ao mesmo caminho, fundando o Instituto de Cacau de Rondônia?

Em ambos os casos, é fundamental buscar um líder inspirado no Tosta Filho, criador do Instituto de Cacau da Bahia e na força de trabalho contaminante de Frederico Afonso.

Não há uma perseguição à CEPLAC, querendo fechar as suas portas? A hora deve ter chegado de modo indolor. Os novos organismos absorveriam, em comodato, o patrimônio físico e formariam seus novos times.

E a Bahia? É um caso mais complicado por suas linhas cruzadas e falta de liderança. Mas, creio ser possível, revivendo o simbolismo da fénix: renascer das próprias cinzas. (Maceió, AL, 28.11.2023).